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o amor, que era ela

E tinha a minha bisavó, muito velhinha e linda. Rosto marcado de tempo e sofrimento. Rezava um rosário todo dia. Que eu nunca esqueça seus vestidinhos floridos, seus poucos filhos de barriga e os muitos de coração. Tomara que eu nunca esqueça a marrafa que ela usava pra pentear e prender em um coque os cabelos que nunca foram pintados – e, mesmo assim, tinham um tom muito bonito de cinza. Ela sabia a cura de todos os males – lambedor, chá, folhas e ervas. Me ensinou a rezar – vou esquecendo disso. Tinha uma pimenteira no muro  – uma vez, achando bonito o vermelho da pimenta e o verde das folhas, passei a pimenta na boca. Que eu nunca esqueça o amor que ela tinha pelo meu bisavô e as histórias de botija e de trancoso. A casa era de vila, móveis velhos, teto sem forro – mas nunca faltou um prato de comida a quem precisasse, gente ou bicho. Que o doce de leite de caroço, o pote de barro e fotografias de santo sempre me lembrem ela.

Que eu nunca esqueça o amor, que era ela.

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cotidiano

Ela vem pra cama achando que não fez barulho quando tropeçou na mesinha e derrubou as chaves. Tira a roupa,  sai jogando tudo no caminho pro banheiro, fecha a porta. Quando ela abre, sinto cheiro de sabonete, creme e pasta de dente. Talvez por pensar que eu ‘tou dormindo, senta na beirada da cama e fica olhando pra mim com um sorriso besta na cara. Dou um susto nela – “Porra, Abelardo, tu sabe que eu detesto essas coisas!” e faz careta (mas se sente culpada por ter me acordado). Se joga na cama e eu me aproximo pra dar um beijo nela, o gosto é de pasta de dente – e cigarro. Eu pergunto “você fumou?” e ela diz “claro que não”. Insisto e ela nega. Pergunto mais uma vez, nós dois rimos. “Tem certeza?”, falo só pra encher o saco, e ela conta como o chefe dela tratou ela mal. E começa a chorar. “TPM?” eu arrisco; ela me dá um tapa. Fico só olhando, de longe, sem saber muito bem o que fazer. “Me abraça, retardado” – ainda bem que ela é muito clara. Fico com os braços ao redor dela até sentir que ela dormiu (e eles estão dormentes). Sinto uma coisa engraçada no estômago quando penso que podia matar o filho duma puta do chefe dela, bastava ela pedir. Aí eu viro pro outro lado e volto a dormir.