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Sobre brunabez

Eu nasci numa manhã provavelmente bem quente de um novembro do século passado. E desde então venho fugindo do sol e correndo de briga.

o amor, que era ela

E tinha a minha bisavó, muito velhinha e linda. Rosto marcado de tempo e sofrimento. Rezava um rosário todo dia. Que eu nunca esqueça seus vestidinhos floridos, seus poucos filhos de barriga e os muitos de coração. Tomara que eu nunca esqueça a marrafa que ela usava pra pentear e prender em um coque os cabelos que nunca foram pintados – e, mesmo assim, tinham um tom muito bonito de cinza. Ela sabia a cura de todos os males – lambedor, chá, folhas e ervas. Me ensinou a rezar – vou esquecendo disso. Tinha uma pimenteira no muro  – uma vez, achando bonito o vermelho da pimenta e o verde das folhas, passei a pimenta na boca. Que eu nunca esqueça o amor que ela tinha pelo meu bisavô e as histórias de botija e de trancoso. A casa era de vila, móveis velhos, teto sem forro – mas nunca faltou um prato de comida a quem precisasse, gente ou bicho. Que o doce de leite de caroço, o pote de barro e fotografias de santo sempre me lembrem ela.

Que eu nunca esqueça o amor, que era ela.

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nostálgica

Pedaço de folha de caderno,  fotografia, ingresso de show. Poeira, tosse. Papel de bala, folheto de museu, envelope com uma carta vinda de outra cidade – tempo pra ler o que tem nela – post-it, adesivo, bilhetinho de escola. Suspiro. Saudades do colégio: esquisito. Espirro, pausa pra pensar que já deveria ter feito isso antes. Caixa de chocolates pra guardar miudezas. Um brinco sem par. Guardanapo do bar daquele dia. Um grampo de cabelo – sempre útil.  Uma chave – de onde, mesmo? A imagem do galã cortada da revista, a página que soltou do livro preferido, a flor seca da primeira vez que ganhou um buquê.

cotidiano

Ela vem pra cama achando que não fez barulho quando tropeçou na mesinha e derrubou as chaves. Tira a roupa,  sai jogando tudo no caminho pro banheiro, fecha a porta. Quando ela abre, sinto cheiro de sabonete, creme e pasta de dente. Talvez por pensar que eu ‘tou dormindo, senta na beirada da cama e fica olhando pra mim com um sorriso besta na cara. Dou um susto nela – “Porra, Abelardo, tu sabe que eu detesto essas coisas!” e faz careta (mas se sente culpada por ter me acordado). Se joga na cama e eu me aproximo pra dar um beijo nela, o gosto é de pasta de dente – e cigarro. Eu pergunto “você fumou?” e ela diz “claro que não”. Insisto e ela nega. Pergunto mais uma vez, nós dois rimos. “Tem certeza?”, falo só pra encher o saco, e ela conta como o chefe dela tratou ela mal. E começa a chorar. “TPM?” eu arrisco; ela me dá um tapa. Fico só olhando, de longe, sem saber muito bem o que fazer. “Me abraça, retardado” – ainda bem que ela é muito clara. Fico com os braços ao redor dela até sentir que ela dormiu (e eles estão dormentes). Sinto uma coisa engraçada no estômago quando penso que podia matar o filho duma puta do chefe dela, bastava ela pedir. Aí eu viro pro outro lado e volto a dormir.

Esta não é uma obra de ficção

Por uma destas questões sociais que nos obrigam a agir não-naturalmente, vejo-me em meio a um aglomerado de pessoas e lá vou eu fazer aquilo que não me é muito usual: tentar ser simpática e agradável. Tento participar da conversa non-sense, fazer cara de atenção e rir das piadas. Na maioria das vezes, nessa ocasiões, desligo o meu detector de ambiguidades, ironias e sarcasmos, uma vez que dificilmente a conversa sai do nível epidérmico.

A conversa girava em torno dos efeitos do envelhecer e a senhora A comentou que não dorme tanto quanto antes, não consegue mais dormir até muito tarde. Então a senhora B comenta que dorme horrores e que, em fins de semana dorme até 10, 11h. O marido da senhora B, um legítimo comediante circense, comenta, então:

– ‘Realmente, B é boa de cama’ – referindo-se, obviamente, ao fato de que sua esposa dormia bastante (ressalto aqui a inatividade do meu detector de entrelinhas). Respondo a ele, inocentemente, referindo-me à minha apaixonada dedicação ao ato de dormir:

– ‘É, eu também’.

Apaixonada, eu quero dizer

– eu já disse que ele é o homem da minha vida?

– e que ele é lindo, tesão, bonito e gostosão?

– HAHAHAHAHA

– já

– que o sotaque dele é um charme e eu acho todas as piadas dele hilárias?

– que eu gosto do gosto musical dele, que eu gosto do estilo dele, que eu acho ele inteligente, que eu acho que ele escreve bem?

– já disse isso?

– é possível se apaixonar por um punhado de palavras num blog e alguns vídeos no Youtube? porque se for, eu acho que tou

– apaixonada, eu quero dizer

Palavras roubadas

“Mas entre o repórter e a desordem da terra de sombras, há uma muralha: homens com capacetes, portando escudos. O repórter fala com gravidade; coquestéismolotov balasdeplástico baixasentreospoliciais canhõesdeágua saques, limitando-se, evidentemente, aos fatos. Mas a câmera vê aquilo que ele não menciona. Uma câmera é uma coisa que pode ser quebrada ou roubada com facilidade; sua fragilidade a torna exigente. Uma câmera exige lei, ordem, uma fila de policiais uniformizados. Procurando se preservar, ela se mantém atrás da muralha de escudos, observando a terra de sombras de longe e, é claro, de cima: ou seja, ela escolhe um lado”.

* apaixonada pel’Os Versos Satânicos, Salman Rushdie.