Era uma velhinha bem branquinha, dos cabelos ao brinco de pérolas. Dava comida aos pombos enquanto tricotava e, de vez em quando, cumprimentava um ou outro que passava pela pracinha do bairro. Fazia biscoitos como ninguém.
Lembrava com riqueza de detalhes os 65 anos em que passara casada – e traíra seu marido todos os dias até o dia em que ele descobriu (teve um enfarto e morreu).
Era um executivo bem-sucedido, paletó-gravata-camisa-sapato-pasta. Escritório com foto da esposa e das crianças, decorado pelo arquiteto da moda. Negociador implacável, sabia o nome de cada um de seus funcionários.
Ficava além do horário no trabalho todos os dias – e cheirava cocaína em sua sala (apelido carinhoso nos lugares certos: aspirador).
Era uma cientista respeitada, conhecida no mundo inteiro. Seu currículo demoraria, pelo menos, 10 dias pra ser lido por completo. Resolvia equações complicadíssimas e cheias de incógnitas sem pestanejar.
Vivia cercada de homens brilhantes – não se sentia à vontade fazendo sexo com um deles (e por isso o encanador, o porteiro, o garoto de programa).
Era um rapaz irrepreensível. Ia à igreja aos domingos, fazia faculdade de direito e falava fluentemente 4 línguas e arranhava uma quinta. Não jogava lixo nas ruas e ajudava cegos a atravessarem a rua. Um futuro promissor e um bom partido.
Respeitava o fato d’a namorada querer casar virgem – e engravidou a filha da empregada (viajou pra Europa e nunca mais a viu).
Era uma jovem juíza. Batalhou muito pra chegar onde estava, era justa e querida por todos, um exemplo. A segurança dos cidadãos de bem e o terror dos malfeitores da cidade.
Punha a carreira como prioridade em sua vida – já tinha feito dois abortos (e faria quantos mais fosse necessários).
Era um lutador de boxe. Ganhou vários torneios e medalhas. Todos ficavam impressionados com a rapidez com que ele descobria o ponto fraco dos adversários. Já perdeu uns 4 ou 7 dentes, mas isso são ossos do ofício.
Observava cada detalhe do adversário – e mal se controlava quando tocava o corpo dele (o ringue era único lugar em que ele se permitia agarrar outro homem).
Era um padre muito querido pela paróquia. Mantinha uma creche, rezava missas nas casas dos mais pobres, deixava de comer para dar comida aos necessitados. Ajudava as mães, empregava os pais, colocava as crianças na escola.
Amava seus paroquianos – e tinha um caso com a mulher de um deles (a quem amava particularmente e disso todos sabiam).